sábado, 26 de março de 2011

Olhos estrangeiros

Hoje eu vi uma família japonesa entrar no ônibus. Hoje eu vi uma criança de colo com olhos puxados e sorriso largo sorrir para mim. Ela brincava, tranqüila com a transparência do vidro. Exatamente: com a transparência, não com o vidro. Ela agitava-se e olhava ao seu redor, por aquelas frestas, o mundo estrangeiro e me dizia em língua universal – a língua da boca aberta e os dentes aparecendo - que tudo ia ficar bem. Mal sabe ela, na sua inocência espontânea e demasiada aconchegante, nova pra mim, eu diria (naquele momento de estranhamento e desconfortável insegurança), que a minha vida e a dela tinham passado por transformações irreversíveis. Não aquelas irreversibilidades corriqueiras, que até passam despercebidas. Aquela que marca seu comportamento e deixa uma cicatriz no limbo da alma.
Não sei exatamente o que trouxe aquela família junto com a criança até o Brasil. Minha imaginação que flutuava através dos pequenos acontecimentos da rua, evaporada em diversas situações se concentrou toda em adivinhar o motivo. Acredito que o terremoto os fizeram sair de lá – e não há como dizer se permanentemente ou não. O pobre bebê estrangeiro não sabe pelo que passou seu povo. E eu, pobre estrangeiro em mim, ainda tento entender pelo que passei sem racionalizar o irracionalizável.
E essa é a única coisa que eu e aquele bebê japonês temos em comum e talvez – além da condição de existir – será a única coisa que teremos por toda a vida: o fato de não sabermos pelo que passamos. Mas o bebê de olhos finos e sorriso delicado foi o único capaz de me atingir, naquele momento e até agora, de maneira que nenhuma outra palavra conseguiria. O bebê que preferia a transparência do vidro ao próprio objeto, ao sorrir em convalescença com meu coração banhado em agruras me disse apenas “tudo vai ficar bem”. Ele não sabia de nada. Mas disse. E eu estava precisando só ouvir. Sem entender. Só ouvir.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ritual

Carnaval é muito mais sério do que pensam. 
É a época que a empregada vira rainha no sambródomo e a patroa a assiste do camarote. 
É a época que o povo toma as ruas e deprava seus valores, falsas morais. 
É a época que o brasil se inverte. 
E se invertendo se encherga. 
E quando se encherga, ritualiza a realidade.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sinal de fumaça

O Programa de Silêncio Urbano (PSIU) da Subprefeitura do Centro e Centro Histórico do Rio de Janeiro, amparados pela Lei do Silêncio e quaisquer outras de mesmo caráter duvidoso que não prevê as convenções barulhentas dos carros, ônibus, geradores de supermercados, buzinas ou qualquer outro tipo de "incômodo público", está (às escuras) intimando o fechamento de casas de shows e outras similares que recebem com seu alento as manifestações artísticas/culturais genuínas do povo carioca.
O PSIU, assim como o CHOQUE DE ORDEM, pretendem cobrir, ocultar, marginalizar, coagir, esconder e impossibilitar qualquer tipo de manifestação cultural e artística de caráter ideológico diferente do atual, em gestão oficial, através de justificativas limitadas pela ignorância em que os mentores de tais leis se encontram.
Não me farão de idiota.
Do contrário me refugiarei em nossas tocas, pularei das docas até o porto mais fundo de nossas concepções ainda em resistência, reconstruirei as ocas para que lá suba até o mais alto céu, em fumaça e fogo, a projeção onírica, catartica, xamânica e sideral da arte de confronto.
Se me perderem pelo caminho, saibam que eu morri.
Morri antes de ver a derrocada final, o último embate, a última lasca de árvore ser transformada em porta para nos fechar em pudor de nossa própria carne viva.
Morri logo depois de ter subido aos céus na vã tentativa de tentar posicionar nossas angústias a uma distância que todos pudessem enchergar. E aí eu cai. E em queda livre evaporei, parte por parte até só restar a poeira do meu sangue jorrado em nome de uma antiga lenda chamada utopia.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Tenho fobia de sala de aula. Não consigo me moldar na cadeira que me compraram para sentar. Não agüento ouvir os brados dos professores atrasados na própria época que arranjam maneiras de tornar tragável o ar mofado do quadro “negro”. Cheirar o pó do giz e descer as escadas ouvindo lamentos disfarçados de conversas interessantes, nas universidades. Tenho fobia de sala de aula. Prefiro os devaneios sem sentido dos moradores das boemias de bares de esquina ao comodismo pragmático dos homens escolarizados, robotizados. Quero a mentira orgânica, o erro verdadeiro, o não-eu, o não-nós, nosso. A memória vazia de estigmas antigos e o veneno doce do escorpião que pica o próprio corpo pra provar que não tem sangue de barata.

Alegria, Alegria.

Estou com medo de desistir da felicidade. A felicidade que se mascara oferecendo limitações como vantagens, polenizando sorrisos em panfletos de eventos, praias com sol e atribuindo conhecimento a universidades do século passado. É, a felicidade foi banalizada pelos que não a reconhecem como um estado de espírito, aceita pelos que se desesperam para tê-la. Como serei sem ser feliz? Estaria eu indo na direção certa se preferisse o sentimento orgânico a plasticidade cultivada em estufa para crescer robusta e fagocitar os carentes de sentimentos “anti-depressivos”? Não quero mais brincar de sorrir atoa. Quero sorrir atoa por não me vender a preço de custo para quem produz felicidade em série. Me manterei triste se esse for o único jeito de continuar tendo o controle sobre o nó da minha garganta, o sopro do meu coração, o frio da barriga.

Depois do sono

No reflexo do espelho embassado te vejo me olhando do banho. Eu, ainda cambaleando do sono,ardo ansiando pelas gotas d’água que ainda restarão do seu corpo recém enxugado. Descendo aos pés e regando meu pisar descalço, nos afogando em sussuros, claustrofobicamente em volto a um abrigo notívago que mas parece o repousar dos seus cabelos sobre a cama. Deito. Leito. De peito aberto e porta fechada. Espero-te voltar... Demora... Já se passaram 10 minutos desde que você se levantou.

Entre chaves

O momento. Intigante como o fogo de uma vela acesa que a cada movimento desfaz sua forma para imediatamente assumir outra, e depois outra e depois outra... O momento. Doloroso e doce como a ponta de uma caneta, como um cigarro aceso, como uma pálpebra se fechando. No momento, o agora, descubro o futuro do que não fui. E a cada momento estarei paralisado pelo tempo, consumido pelo futuro, no qual eu não sei quem serei.